Arquivos para o dia: 13 13UTC janeiro 13UTC 2012

Apesar de ser um leitor de quadrinhos preocupado com a relação da qualidade com a quantidade do que é produzido, posso afirmar que estou cada vez mais feliz por ver a adesão que as HQs estão tendo dentro do nosso país. Antes o mercado era meio restrito a grupos de autores e leitores com vícios autoafirmativos que, no contexto geral, ajudavam a criar estereótipos, excluindo quem estivesse fora do lugar comum. O leitor já esperava uma obra que tivesse uma carga “cultural” impregnada de clichês sobre a real condição do Brasil ou do seu povo. Ou seja, muitos deixavam de comprar HQs nacionais, porque tinham uma ideia do que estaria escrito e quais pontos seriam abordados constatando a falta de originalidade.

Podem chamar de preconceito, mas a verdade é que esses leitores estavam cansados de ver sempre o mesmo tipo de narrativa e regionalismos exagerados. Todos queriam algo original, porem que mantivesse o espírito brasileiro, e é justamente nesse ponto que a HQ Fractal se diferencia do produtor comum nacional.

Ao abrir as primeiras páginas de Fractal, somos confrontados com uma pequena narrativa que serve como uma ótima demonstração das reais intenções da leitura. Genética, DNA, pequenas partículas quânticas e a geometria dos Fractais são a forma da autora nos dizer que essa vai ser uma leitura no mínimo densa. No mundo dos quadrinhos, tratar desses assuntos sem cair dentro de tramas envolvendo mutantes heroicos ou ameaças alienígenas é um grande desafio, sendo que abordar de forma concisa e interessante, relacionando os mesmos temas com o mundo real, igual a esse em que vivemos, só torna o dificuldade maior ainda.

A trama proposta de início é bem simples: policial da delegacia de homicídios é convocado à participar de uma investigação em conjunto com a delegacia antissequestro. Desaparecimentos estranhos estavam acontecendo com uma frequência grande e só atingiam pessoas nascidas numa mesma data e no mesmo hospital.

Até ai o cenário pode ser considerado normal em termos de história para HQs. O negócio começa mesma a esquentar quando Liel, o policial em questão e o personagem principal, percebe que os desaparecidos além das duas características iniciais tem uma terceira: são gêmeos, mais precisamente a parte masculina de uma casal de gêmeos. Esse é ouro preso nas entre linhas da história de Fractal. O potencial que a história tem de focar em elementos loucos e incomuns como maçonaria, numerologia, fractais e matemática linear.

Liel, quase um super policial, é de longe o personagem trunfo da história e o melhor desenvolvido, todos os outros são apenas sombras de seres humanos reais. Ele tem um passado pouco claro, aliado a um presente fácil de definir como: caótico e pouco feliz, onde seu trabalho serve de fantasma ao mesmo tempo em que o encoraja a continuar vivendo e sua namorada socialight com problemas psicológicos o utiliza como pilar de sanidade. Falando em trunfos, cabe aqui fazer um levantamento dos pontos positivos e motivos de compra de Fractal.

De prima podemos destacar a originalidade em termos de HQ nacional, mesmo que ela possa ser comparada as obras de literatura policial, tão comuns nos anos 50. Os elementos pouco convencionais para nós brasileiros, intimamente ligados a números e citações literárias (O Médico e o Monstro), servindo de gancho para o nível de profundidade da trama, forçam um limiar entre o entendimento sem o auxílio de uma enciclopédia e as pontuações bem construídas atrativas para o leitor. Claro que a boa narrativa é de grande ajuda nessa questão do “entender a trama”, até mesmo porque ela vem à compensar os diálogos pouco estruturados tão comuns na comunicação diária.

Quando o assunto é a arte de Fractal, temos que entender primeiro o valor de uma boa HQ em preto e branco. E não podemos ver a utilização desse recurso, apenas afins de causar uma boa impressão ao publico apreciador. As imagens movimentadas construídas no tom monocromático foram essenciais para criar o ambiente da trama. Os desenhos são bem detalhados e com traços finos, a diagramação é perfeita e bate de encontro com a ideia da HQ ser explicativa no mesmo momento em que propões desafios ao intelecto do leitor. Numa conclusão final, é viável afirmar que foi um trabalho de ilustração bem casado.

Fractal foi editado em 2009 e saiu pela Devir. Escrito por Marcela Godoy e ilustrada por Eduardo Ferigato, fica de indicação para um publico mais adulto, pelas cenas fortes de seminudez e a violência, porém acima desses detalhes, o que faz ser uma indicação adulta é o nível de profundidade do material. Quem quiser mais informações, basta dar uma lida na página da Devir (link: http://www.devir.com.br/hqs/fractal_v001.php) ou comprar a HQ (sem medo) pela Comix (link: http://www.comix.com.br/product_info.php?products_id=10593), o preço é um dos atrativos também.

POSTADO ORIGINALMENTE EM http://blog.meiapalavra.com.br NO DIA 4 DE JUNHO DE 2010

A juventude está categorizada naquele grupo de temas complicados de serem abordados dentro do mundo das HQs. Aparentemente essa pode parecer uma afirmação sem sentido, já que as histórias em quadrinhos deveriam ter como público-alvo os “as gerações mais novas”, mas nesse caso o problema não está exatamente no produto e sim nos seus desenvolvedores, porque escrever sobre jovens para que outros jovens leiam, é dar início a uma experiência vivenciada no limiar dos clichês falhos. Felizmente, vez ou outra, obras como Xampu – Lovely Losers aparecem para mostrar que a “juventude”, mesmo tardia, pode ser uma temática bem explorada, chegando ao ponto de merecer uma indicação.

O roteiro de Xampu é focado dentro da vida de 4 personagens principais e os elementos em comum que os rodeiam. Max, O Sombra, Nicole e Raquel estão na capa da HQ como uma daquelas ilustrações que vinham no centro dos discos de vinil. A presença do LP e os personagens são suficientes para se deixar claro que essa não é uma história atual e nem sobre uma juventude “colorida”. Toda a trama se passa nos anos 80 e é recheada de citações à filmes, programas e bandas da época, ficando em maior apelo a parte musical já que O Sombra, um dos personagens principais, é vocalista de uma banda de Hard Rock e um apaixonado pela música e a fama que ela pode trazer.As histórias são divididas em faixas, assim como seriam num LP de verdade. Nelas, os 4 personagens vão vivenciando experiências comuns a todos aqueles que tiveram seus 20 poucos anos vividos durante a década de 80. Festas regadas a bebidas e muita música, dividir apartamento com amigos, sobreviver com uma renda limitada, tentar mudar de vida, ser famoso entre as meninas, viver, crescer, chegar ao fundo do poço e, talvez, voltar. São tantas as experiências dentro de poucas páginas e apresentadas com uma certa rapidez.

Xampu usa todos esses elementos revolucionários para a época como, por exemplo, o comportamento transgressor dos ditos “roqueiros”, a fim de abordar uma gama de acontecimentos que são sentidos de uma forma mais acentuada na fase chamada juventude. Amores partidos, vidas queimadas, destinos cruéis e o cotidiano juvenil são postos em sua forma mais realista. Ou seja, não existem duas páginas seguidas com um texto pretensioso e pouco comum. Os personagens são parecidos com amigos seus, os lugares são idênticos aos que vocês podem ver por toda a grande São Paulo e, principalmente, os acontecimentos são muito reais, ao ponto de já terem ocorrido com boa parte de leitores.

Talvez o mais legal de Xampu seja o fato de que toda a obra foi solidificada usando uma argamassa chamada “clichê satisfatório”. Por mais comum ou usual que os perfis e ambientes sejam, ou por mais real que as situações possam parecer, em momento algum o leitor vai se queixar de estar sendo enganado. O realismo é a ferramenta utilizada para espalhar essa argamassa sem prejudicar a escultura com traços forçados.

No que diz respeito a arte e as cores, não existem reclamações. Colocar toda a ilustração em preto e branco, com um traço marcado deu expressão aos personagens e vida aos ambientes. Um possível descontentamento seja com o fato de que a cidade de São Paulo não está bem ambientada, simplesmente por uma falta de visões comuns e pontos de encontro.

Um outro susto para o leitor é saber que tudo essa obra foi pensada, escrita e ilustrada por uma única pessoa. Roger Cruz, um nome conhecidos para os leitores da Marvel, nasceu em São Paulo em plenos anos 70 e começou a trabalhar com ilustração ainda jovem. Fica visível a influencia de sua juventude dentro de Xampu e talvez essa marca de ainda mais credibilidade ao roteiro de Xampu.

Acredito que os dois melhores grupos para se indicar a leitura de Xampu sejam grupos conflitantes. O primeiro deles é formado pelos saudosistas que viveram nos anos 80 sua juventude e estavam antenados com o cenáriorock n’ roll. Já o segundo grupo, pode ser formado justamente por uma juventude que está bem longe do ambiente retratado pela HQ, não sei se existe uma nomenclatura correta, porém gosto de chamar esse grupo em questão de “coloridos”. No caso, esse segundo grupo, deveria ler a HQ para ter a oportunidade de conhecer os anos 80 de uma forma diferenciada e mais direta.

Xampu Lovely Loser saiu pela editora Devir e custa uma média de 25 à 30 reais. Quem quiser comprar uma, indico a Comix Book pela confiança que tenho no trabalho deles.

POSTADO ORIGINALMENTE EM http://blog.meiapalavra.com.br NO DIA 25 DE AGOSTO DE 2010

O brasileiro está acostumado a esquecer de seu produto nacional quando o assunto são histórias em quadrinhos. Poucos dão valor as HQs que são produzidas por essas bandas, e a situação só tende a piorar quando o enredo como a ambientação da história se passam em lugares considerados banais ou comuns no cotidiano do cidadão. O problema está na clara falta de divulgação e muito provavelmente foi o mesmo elemento que faltou quando lançaram a HQ Estação Luz.

Escrita por Guilherme Fonseca e ilustrada por Renoir Santos, Estação Luz conta a história de Wagner, um professor de faculdade que tem uma vida desinteressante e parada, até que se conhece um “malandro paulistano” que vive nas imediações da estação ferroviária que dá nome a HQ. Seduzido pelo andarilho sem nome, Wagner passa a conhecer uma São Paulo antiga, mal explorada e cheia de becos psicológicos capazes de transformá-lo em um novo homem, porém esse envolvimento com estranhos e novos comportamentos acabam levando Wagner a uma situação onde um pacto é feito e ele tem que pagar sua parte.

Estação Luz deixa pode não deixar claro logo de prima que tem fortes relações com o conto germânico do Dr. Fausto, porém a influência do mito literário fica impressa nas próprias palavras do autor no final da HQ. O fato não chega a ser um “corta tesão”, porque é de conhecimento geral que nada se cria (tudo se adapta), só é estranho porque parece ser completamente contraditório usar uma história clássica européia para apresentar lugares e perfis comuns no dia a dia do paulista.

O ponto positivo é que “o Fausto brasileiro” ficou bem feito e consegue convencer nos textos e nas ilustrações, mostrando sempre uma São Paulo e suas características menos explorada. Acontece de criar aquele sentimento de verticalização com outras captais recorrentes em histórias em quadrinhos de temática mais adulta, atribuindo um valor cultural ainda maior.

Talvez o único problema com a obra esteja na forma como o roteiro foi colocado no papel para ser ilustrado, deixando os pontos e viradas previsíveis e ritmados por características secundárias, como a presença das letras de músicas que deveriam servir como trilha sonora das cenas. Mas o erro não apaga a qualidade impressa e nem diminui o esforço de trazer para dentro da realidade nacional uma idéia que já havia sido imortalizada dentro do conceito medieval.

Estação Luz foi editada pela Devir, lançada em 2009, tem 80 páginas com miolo em papel couchê, lombada rígida e páginas adicionais explicando o processo de criação e um pequeno estudo psiquiátrico sobre o conto de Fausto assinado pelo médico Bernardo de Gregório. O preço varia de entre 25 e 30 reais, infelizmente não é aconselhado para menores de idade, mas se você é adulto e quer conhecer mais dos quadrinhos escritos por aqui, Estação Luz fica de indicação.

POSTADO ORIGINALMENTE EM http://blog.meiapalavra.com.br NO DIA 4 DE MAIO DE 2011

Por muito tempo a sociedade brasileira renegou ou fugiu de seu passado cultural afro-descendentes. Faltava espaço para que a cultura do continente africano fosse exposta de diversas formas e meios. Os quadrinhos nacionais, já meio que marginalizados ou subdivididos, não mostravam ser o melhor ambiente para tentar essa divulgação, porém o escritor Alex Mir e o ilustrador Caio Majado, junto com a editora Marco Zero, acreditaram que as HQs também podem abrir suas páginas para esse legado tão antigo quanto a mitologia “caucasiana” ensinada nas escolas. O resultado da credulidade dos três é a surpreendente HQ Orixás.

Lançado no início de 2011, a HQ é uma reunião dos principais contos mitológicos que formam a base para a cultural dos Orixás. As histórias são contadas de uma forma “crescente”, ajudando o leitor no entendimento do processo criacionista da religião que cultua entidades como Oxum, Ogum, Iemanjá e Oxossi. A HQ aborda desde o mito da criação dos mundos e dos deuses, passando pela criação do homem, até chegar na cisão do mundo espiritual com o mundo real, que fazem parte do título – Orum e Ayê.

O resultado dessa integração dos contos é muito parecida com projetos onde a intenção é ilustrar passagens da bíblias. No fim Orixás se mostra uma HQ bem simples e sem grandes pretensões polêmicas, apesar de tocar num assunto que infelizmente ainda é tabu em alguns círculos sociais.

O tratamento do texto e a forma neutra que ele assume ao se posicionar nas questões histórico religiosas é um incentivo a leitores não religiosos, que tem uma tendência a fugir de qualquer publicação que esbarre no tema. A arte, com traços modernos e arrojados, às vezes complica na ambientação do que está sendo descrito, mais pelo fato de que a mente associa a “religião e mitologia” a desenhos mais clássicos do que por falta de talento.

Adquiri minha cópia em uma mega store de livros, porém acredito que Orixás – Do Orum ao Ayê pode ser facilmente encontrado em lojas menores, especializadas em quadrinhos ou através do próprio site da editora. O importante é saber que ao comprar a HQ, você vai estar contribuindo não só com o crescimento cultural, também pode estar ampliando horizontes pessoais.

POSTADO ORIGINALMENTE EM http://blog.meiapalavra.com.br NO DIA 8 DE JUNHO DE 2011

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