Sou um leitor cheio de preconceitos, porém quando bato de frente com uma obra que mostra o quanto estou errado, tenho a capacidade de me redimir. O caso mais recente dessa redenção literária é com os romances policiais, e mudei de opinião após ler o mais novo livro de Jô Soares, “As Esganadas“.Esse primeiro contato com o tipo de escrita do Jô fez com que eu buscasse rever meus conceitos sobre tal estilo literário, o romance policial, que em essência é conhecido por utilizar muitos clichês e repetir estruturas nas tramas.
Em primeiro plano, As Esganadas apresenta todos os lugares comuns do estilo. Dos personagens à narrativa, posso dizer que não existe uma grande diferenciação do que já foi escrito em termos de romance policial. O livro segue aqueles preceitos básicos que conquistam o leitor pela facilidade da leitura. O dinamismo cativante e a necessidade de continuar lendo para não perder o ritmo das cenas e ações são visivelmente impressos a cada capítulo. Até mesmo os personagens são uma síntese dos arquétipos mais comuns, apresentando desde o “irritado delegado de polícia” à “jornalista destemida”. Porém, o fator que me chamou atenção na leitura e me fez questionar meus conceitos estava dentro de uma camada mais profunda.
A história de As Esganadas gira em torno de uma série de assassinatos cometidos nos anos 30, que há como principal característica as vítimas: mulheres de peso, ou como o autor mesmo coloca, “as gordas”. Dentro desta estrutura simples, Jô vai permeando a trama com informações sobre venenos, história nacional (período do Estado Novo varguista), futebol e automobilismo, usando como gancho para inserção dessas informações o próprio background dos personagens, tirando desses um pouco do peso ocasionado pela repetição existencial nos outros livros de romance policial.
O uso de ilustrações recorrentes consegue se tornar apenas um detalhe em toda a história do livro. O leitor, ou ao menos o leitor dentro de mim, degusta a obra como quem vê um DVD com os comentários do diretor. Não senti em momento algum a trama sendo jogada de lado para que o autor pudesse justificar sua pesquisa inserindo comentários desnecessários, talvez porque cada colocação sobre as condições do Estado, ou as condições da seleção, serviu como uma maneira de humanizar a situação e seus participantes.
Se essa crítica tivesse mais detalhes específicos sobre a história, apenas daria spoilers, e possivelmente retiraria a graça da leitura, porque Jô seguiu uma linha parecida com a do Hitchcock quando formulou a linha de tempo de As Esganadas. Deixando claro quem é o assassino e quais são suas motivações, ele deu uma preocupação urgente, bem diferente dos títulos que seguem uma linha mais parecida com as obras de autores consagrados dentro dos romances policiais, como Agatha Christie, que fazia de seus livros uma narrativa em que o leitor caça os vilões junto com os detetives envolvidos na história.
As Esganadas é uma boa leitura, mesmo não chegando a ser algo excepcional. Seu valor está localizado na mistura de entretenimento e informação, fazendo de si uma leitura fácil, mas cativada pela necessidade de se saber mais sobre o mundo em volta dos personagens e da trama. Se tivesse de categorizar o livro, o colocaria num estante com a legenda “romance policial histórico informativo”. Mas eu sou apenas um leitor cheio de preconceitos a serem destruídos.
POSTADO ORIGINALMENTE EM www.artilhariacultural.com NO DIA 13 DE DEZEMBRO DE 2011

